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Anomalia


A situação chamou a atenção da imprensa. Jornalistas entrevistavam pessoas maravilhadas diante da anomalia, como eles agora chamavam. Uma jovem deu seu depoimento quase em êxtase. Não sei explicar. Um executivo, com o celular na mão, gesticulava de forma frenética. Nunca vi algo como aquilo. Um funcionário da rede telefônica dizia não ter receio de ser demitido por ter paralisado o trabalho para contemplar o fenômeno. Vocês entenderiam se vissem o que vi. Um bombeiro alegou que a corporação fora chamada para retirar algo da árvore. Eu jamais tocaria naquilo. Um dos policiais comentou não haver ocorrência necessária para uso da força. Não havia nada de errado, pelo contrário.

No percurso diário de volta do trabalho, um velho homem reparou algo na rua. Uma árvore. Não havia nada de errado nisso, afinal grandes cidades possuem árvores nas calçadas. O problema era outro: ele nunca havia visto árvore alguma naquele lugar. Ele estava tão certo disso que a simples presença do vegetal mudou não apenas sua rotina, mas, de algum modo, sua própria vida. Originalmente escrito para a antologia Simulacro & Simulação: histórias sobre falhas na realidade, o conto Anomalia abre margem para perguntas que podem vir a se tornar portas. Só não se sabe para onde levam.

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